Fluxo de caixa: como fazer, projetar 13 semanas e calcular o capital de giro
Como fazer fluxo de caixa na PME: modelo semanal pronto, projeção de 13 semanas, calendário de 13º e impostos, e a conta do capital de giro com exemplo.
Equipe Ubiquo Financeiro · · 12 min de leitura
Empresa com lucro quebra. Acontece quando o dinheiro sai antes de entrar: você paga fornecedor em 15 dias, recebe do cliente em 45, e no meio do caminho tem uma folha para pagar. A DRE mostra lucro, o banco mostra saldo negativo.
O fluxo de caixa é a ferramenta que enxerga esse buraco antes de você cair nele. Ele não pergunta "a empresa ganha dinheiro?" (isso é a DRE). Ele pergunta: vai ter dinheiro na conta no dia em que eu precisar?
A maioria das pequenas empresas não tem isso de forma confiável. Na pesquisa Hábitos Financeiros dos Pequenos Negócios, do Sebrae (divulgada em janeiro de 2026), 30% dos donos controlam as finanças em planilha, 25% em anotações no caderno e 10% não têm controle nenhum; 13% deixam com o contador, que normalmente cuida de impostos, não do caixa do dia a dia.
Fluxo de caixa realizado e fluxo projetado
São duas coisas diferentes, e você precisa das duas:
- Realizado: o que entrou e saiu de fato, por data. É o extrato organizado por categoria. Serve para entender para onde o dinheiro foi.
- Projetado: o que vai entrar e sair nas próximas semanas. Serve para decidir: se dá para comprar, se precisa cobrar mais cedo, se precisa negociar um prazo.
O projetado é o que salva empresa. O realizado é o que mantém o projetado honesto: toda semana você compara o que previu com o que aconteceu e corrige a previsão.
A regra que separa fluxo de caixa de DRE
No fluxo de caixa, cada valor entra na data em que o dinheiro se move, não na data da venda ou da nota.
- Venda de R$ 3 mil no cartão de crédito em 3 parcelas: entram três valores, nas datas em que a adquirente deposita, já descontada a taxa. Não R$ 3 mil no dia da venda.
- Boleto emitido com vencimento para 30 dias: entra no dia do vencimento, e só se o cliente costuma pagar em dia. Se ele costuma atrasar 10 dias, projete com o atraso.
- Parcela de empréstimo: entra inteira (juros e principal), na data do débito.
- Compra de equipamento: entra no dia do pagamento (ou em cada parcela).
- 13º salário: entra nas datas em que é pago, não diluído pelo ano como na DRE.
Passo a passo para montar o fluxo de caixa semanal
Para PME, a melhor granularidade é semanal. Diário dá trabalho demais e mensal esconde o problema: um mês pode fechar positivo e ter uma semana no vermelho no meio dele.
1. Defina o saldo inicial real
Some o saldo de todas as contas da empresa (banco, conta digital, saldo a receber já liberado na maquininha) na segunda-feira da semana 1. Esse número vem do extrato, não da memória. Se as contas não estão conciliadas, comece por aí: conciliação bancária.
2. Liste as entradas por data provável
Para cada semana:
- Recebimentos de cartão já agendados (a adquirente mostra a agenda de recebíveis).
- Boletos e Pix a vencer, ajustados pelo histórico de atraso de cada cliente.
- Vendas que ainda vão acontecer, com base na média das últimas semanas. Seja conservador: projete 80% a 90% da média se o seu faturamento oscila.
- Outras entradas certas (resgate de aplicação, aporte de sócio já combinado).
3. Liste as saídas por data de vencimento
Comece pelas que têm data e valor certos, porque são as que não dá para empurrar:
- Folha e pró-labore.
- Impostos e encargos (DAS, FGTS, INSS).
- Aluguel, condomínio, parcelas de empréstimo e financiamentos.
- Fornecedores com boleto já emitido.
Depois as variáveis estimadas: compras de mercadoria, comissões, fretes, despesas do dia a dia.
4. Calcule o saldo final de cada semana
Saldo final = saldo inicial + entradas − saídas. O saldo final de uma semana é o inicial da seguinte.
5. Marque o caixa mínimo
Defina um valor abaixo do qual você não quer ficar (por exemplo, o equivalente a duas semanas de despesas fixas). Toda semana que ficar abaixo dele está pintada de vermelho e pede uma decisão agora, não quando chegar.
6. Atualize toda segunda-feira
Troque a projeção da semana que passou pelo realizado, acrescente uma semana nova no fim e revise as próximas. Leva 30 minutos quando vira rotina.
Exemplo: o buraco de dezembro visto em novembro
Empresa de serviços com cerca de R$ 80 mil de faturamento mensal, folha de R$ 20 mil em salários e caixa inicial de R$ 25 mil. Projeção feita na primeira semana de novembro. Valores em R$.
| S1 3–7/11 | S2 10–14/11 | S3 17–21/11 | S4 24–28/11 | S5 1–5/12 | S6 8–12/12 | S7 15–19/12 | S8 22–26/12 | |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Saldo inicial | 25.000 | 4.000 | 17.500 | 21.000 | 25.500 | -2.500 | 10.000 | 4.500 |
| (+) Recebimentos | 16.000 | 22.000 | 18.000 | 20.000 | 9.000 | 21.000 | 19.000 | 12.000 |
| (-) Salários e pró-labore | 26.000 | 26.000 | ||||||
| (-) Fornecedores e terceiros | 4.000 | 4.000 | 4.000 | 4.000 | 4.000 | 4.000 | 4.000 | 4.000 |
| (-) Aluguel | 5.500 | 5.500 | ||||||
| (-) Impostos e encargos | 9.000 | 9.000 | ||||||
| (-) 13º salário | 10.000 | 10.000 | ||||||
| (-) Parcela de empréstimo | 3.000 | 3.000 | ||||||
| (-) Outras despesas | 1.500 | 1.500 | 1.500 | 1.500 | 1.500 | 1.500 | 1.500 | 1.500 |
| Saldo final | 4.000 | 17.500 | 21.000 | 25.500 | -2.500 | 10.000 | 4.500 | 11.000 |
O que a tabela mostra, com quatro semanas de antecedência:
- A semana de 1 a 5 de dezembro fecha negativa em R$ 2.500. Coincidem folha, aluguel e uma semana de recebimento fraco, logo depois da primeira parcela do 13º.
- Outras duas semanas ficam perto de zero (S1 e S7). Qualquer cliente que atrase leva a empresa ao cheque especial.
- O mês de novembro, olhado no total, parece tranquilo. Só a visão semanal mostra o problema.
As datas do 13º não são escolha: a Lei 4.749/1965 manda pagar a primeira metade entre fevereiro e novembro e o total até 20 de dezembro. É a maior saída extra do ano para quem tem folha, e a mais previsível. Quem tem caixa apertado pode pagar a primeira parcela antes de novembro, num mês de folga, e tirar esse peso do fim do ano.
Com o buraco à vista, as saídas são concretas e baratas:
- Cobrar antes: oferecer desconto pequeno para o cliente que paga a fatura de dezembro em novembro.
- Mover o que dá para mover: negociar com o fornecedor o boleto da S5 para a S6.
- Não comprar o equipamento planejado para dezembro, ou parcelar.
- Em último caso, contratar crédito com antecedência e juros menores, em vez de entrar no cheque especial na última hora.
O calendário de saídas que pega a PME de surpresa
Monte uma vez e copie para todo ano:
| Quando | Saída | Observação |
|---|---|---|
| Todo mês | FGTS | 8% da remuneração do mês anterior, depositado até o dia 20 (Lei 8.036/1990, art. 15) |
| Todo mês | INSS do pró-labore | A empresa desconta a contribuição do sócio e recolhe até o dia 20 do mês seguinte (Lei 10.666/2003, art. 4º) |
| Até 30 de novembro | 1ª parcela do 13º | Metade do salário, pode ser paga desde fevereiro (Lei 4.749/1965, art. 2º) |
| Até 20 de dezembro | 2ª parcela do 13º | O restante, com os descontos (Lei 4.749/1965, art. 1º) |
| Mês das férias de cada funcionário | Férias com um terço a mais | Constituição, art. 7º, XVII. Programe pelo calendário de férias da equipe |
| Início do ano | IPTU, licenças, anuidades, reajuste de aluguel e de contratos | Pegue os valores do ano anterior e corrija |
Capital de giro: quanto dinheiro a operação prende
Capital de giro é o dinheiro que fica parado entre pagar e receber. Quem vende a prazo e compra à vista financia o próprio cliente, e esse financiamento tem um tamanho que dá para calcular.
Os três prazos
- PMEst, prazo médio de estoque: quantos dias a mercadoria fica parada até ser vendida. Em serviço puro, é zero.
- PMR, prazo médio de recebimento: quantos dias, em média, entre a venda e o dinheiro na conta.
- PMP, prazo médio de pagamento: quantos dias, em média, entre a compra e o pagamento ao fornecedor.
Como estimar com os seus números:
PMR = (contas a receber hoje ÷ faturamento do mês) × 30
PMP = (contas a pagar a fornecedores hoje ÷ compras do mês) × 30
PMEst = (valor do estoque hoje ÷ custo das mercadorias vendidas no mês) × 30
O ciclo financeiro
Ciclo operacional = PMEst + PMR
Ciclo financeiro = ciclo operacional − PMP
O ciclo financeiro é o número de dias que a empresa banca a operação com dinheiro próprio (ou do banco). Um exemplo do Sebrae: estoque de 35 dias, recebimento em 60 e pagamento em 30 dão ciclo operacional de 95 dias e ciclo financeiro de 65 dias.
A necessidade de capital de giro (NCG)
Uma estimativa simples e boa o bastante para decisão:
NCG = (desembolsos operacionais do mês ÷ 30) × ciclo financeiro
Exemplo 1, serviços. Desembolsos de R$ 75 mil por mês (R$ 2.500 por dia), PMEst zero, PMR de 35 dias, PMP de 10 dias. Ciclo financeiro = 0 + 35 − 10 = 25 dias. NCG = 2.500 × 25 = R$ 62.500.
Exemplo 2, comércio. Desembolsos de R$ 120 mil por mês (R$ 4.000 por dia), PMEst de 45 dias, PMR de 30, PMP de 40. Ciclo financeiro = 45 + 30 − 40 = 35 dias. NCG = 4.000 × 35 = R$ 140.000.
Se o caixa disponível é menor que a NCG, a diferença está sendo coberta por cheque especial, por atraso a fornecedor ou pelo dono. E cada dia do ciclo tem preço: no exemplo 2, cada dia a menos libera R$ 4 mil.
Como encurtar o ciclo
| Alavanca | O que fazer | Efeito no exemplo 2 |
|---|---|---|
| Receber antes | Desconto para Pix à vista, menos parcelas no cartão, cobrança no dia do vencimento | PMR de 30 para 20 dias libera R$ 40 mil |
| Pagar depois | Negociar 45 ou 60 dias com os fornecedores principais | PMP de 40 para 50 dias libera R$ 40 mil |
| Girar o estoque | Comprar mais vezes em lote menor, liquidar itens parados há mais de 90 dias | PMEst de 45 para 35 dias libera R$ 40 mil |
| Crescer com cuidado | Crescer aumenta a NCG na mesma proporção | 20% a mais de venda pede cerca de R$ 28 mil a mais de giro |
O último item surpreende muita gente: crescer consome caixa. Mais venda a prazo é mais dinheiro na rua antes de voltar. Antes de uma campanha grande ou de um cliente novo com prazo longo, refaça a conta.
Erros comuns no fluxo de caixa
- Projetar venda pelo otimismo. Use a média real das últimas semanas e corte uma margem. Erro para cima no recebimento é o que mais quebra a previsão.
- Esquecer a taxa e o prazo do cartão. A venda de R$ 1.000 vira um depósito menor, semanas depois.
- Tratar o limite do cheque especial como saldo. Limite é dívida cara pronta para usar, não dinheiro da empresa.
- Misturar a conta pessoal. Se o supermercado de casa sai da conta da empresa, a projeção nunca bate. Veja como separar as finanças pessoais das da empresa.
- Fazer uma vez e abandonar. Projeção que não é atualizada toda semana vira peça de ficção em um mês.
- Olhar só o mês. O saldo de fim de mês esconde a semana negativa do meio.
Modelo para copiar na planilha
FLUXO DE CAIXA SEMANAL — 13 SEMANAS
Colunas: S1 | S2 | ... | S13 (data de início de cada semana)
SALDO INICIAL (= saldo final da semana anterior; S1 = soma dos extratos)
(+) ENTRADAS
Recebimentos de cartão (agenda da adquirente)
Boletos e Pix de clientes (ajustados pelo atraso de cada um)
Vendas novas projetadas (80–90% da média)
Outras entradas
(=) TOTAL DE ENTRADAS
(-) SAÍDAS
Salários e pró-labore
Impostos e encargos (DAS, FGTS, INSS)
13º e férias (nas datas de pagamento)
Aluguel e contas fixas
Fornecedores e terceiros
Parcelas de empréstimos e financiamentos
Investimentos (equipamentos, obras)
Distribuição de lucros
Outras despesas
(=) TOTAL DE SAÍDAS
(=) SALDO FINAL
Caixa mínimo: R$ ______
Semana abaixo do mínimo? [sim/não] Ação: ______________
ROTINA DE SEGUNDA-FEIRA
[ ] Trocar a semana passada pelo realizado (extrato)
[ ] Anotar a diferença entre previsto e realizado e o motivo
[ ] Acrescentar a semana 13
[ ] Revisar recebimentos de clientes em atraso
[ ] Decidir a ação de cada semana abaixo do mínimo
Fontes
- Agência Sebrae: pesquisa Hábitos Financeiros dos Pequenos Negócios (7/1/2026)
- Sebrae/PR: ciclo operacional, financeiro e econômico (exemplo de 35, 60 e 30 dias)
- Lei 4.749/1965, arts. 1º e 2º: prazos de pagamento do 13º salário
- Lei 8.036/1990, art. 15: depósito mensal de FGTS
- Lei 10.666/2003, art. 4º: recolhimento da contribuição do contribuinte individual pela empresa
- Constituição Federal, art. 7º, XVII: férias com um terço a mais